Análise do Radar Verde aponta baixa efetividade de políticas contra desmatamento, ausência de dados auditados sobre fazendas fornecedoras indiretas e lacunas em relação à proposta de lei florestal americana.
As exportações brasileiras de carne bovina para os Estados Unidos cresceram oito vezes em uma década, passando de 33.210 toneladas em 2016 para 271.826 toneladas em 2025, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC). No entanto, um novo estudo do Radar Verde indica que frigoríficos da Amazônia Legal habilitados a exportar para esse mercado continuam expostos a fatores relevantes de risco de desmatamento em suas cadeias de fornecimento.
O levantamento avaliou sete empresas que operam 15 frigoríficos habilitados a exportar carne para os Estados Unidos, com capacidade média de abate de 11.270 cabeças por dia. Essas unidades apresentam exposição a fatores de risco de desmatamento que variam de 144 mil hectares, área comparável ao condado de Los Angeles, a 2,8 milhões de hectares, também comparável, em escala, ao estado de Nova Jersey.
De acordo com a análise, essa exposição está associada a fatores como presença de áreas embargadas por desmatamento ilegal, desmatamento recente e risco futuro de desmatamento nas regiões fornecedoras de gado. A análise espacial identifica ainda concentração de áreas com alto risco de desmatamento em regiões produtoras de gado da Amazônia Legal, especialmente nos estados de Mato Grosso e Rondônia.
A pesquisa também mostra desafios no monitoramento da cadeia de fornecedores. Apesar de 93% das plantas habilitadas a exportar para os Estados Unidos terem assinado Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público Federal, isso não se reflete em evidências públicas consistentes de implementação e monitoramento das políticas, que apresentam efetividade baixa ou muito baixa quando analisadas a partir da transparência.
Embora 11 das 15 plantas frigoríficas demonstrem controle sobre as fazendas fornecedoras diretas, nenhuma empresa publicou dados auditados que comprovem controle sobre as fazendas fornecedoras indiretas, etapa essencial para a rastreabilidade completa da cadeia e para o atendimento aos critérios da proposta de lei americana.
O que diz a proposta de lei americana
O estudo analisa o desempenho dessas empresas à luz da proposta de lei florestal americana conhecida como Forest Act 2023, que ainda aguarda aprovação no Congresso dos EUA. A legislação exigiria que importadores rastreiem a origem de commodities como carne bovina, soja, cacau e borracha, garantindo que não venham de áreas desmatadas ilegalmente. A proposta exige que importadores comprovem, por meio de sistemas de due diligence, que os produtos não estão associados ao desmatamento ilegal, o que pode resultar em restrições à comercialização de produtos que não atendam a esses critérios. Segundo os autores do estudo, se a lei fosse aprovada hoje, as empresas brasileiras exportadoras de carne não estariam em conformidade com suas exigências.
Recomendações
O crescimento das exportações brasileiras está ligado, em parte, à necessidade dos Estados Unidos de conter a inflação de alimentos. Segundo o estudo, esse movimento ocorre em um contexto mais amplo de pressões sobre a produção global, em que eventos climáticos extremos vêm reduzindo a oferta de alimentos, inclusive em países como a Austrália, tradicional fornecedor de carne para o mercado americano.
O estudo aponta que a busca por segurança alimentar por meio da importação de carne pode ampliar o desmatamento no Brasil. O estudo cita dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) segundo os quais a pecuária responde por 71% das emissões de gases de efeito estufa do Brasil, considerando emissões da fermentação entérica e da mudança de uso da terra associada à atividade.
O Radar Verde recomenda que empresas e o governo dos EUA priorizem a compra de carne de frigoríficos com baixo risco de desmatamento e que adotem políticas de rastreabilidade que cubram tanto fornecedores diretos quanto indiretos. O estudo também sugere que o Forest Act inclua a proibição de importações de áreas recentemente desmatadas, mesmo quando o desmatamento for legal, uma lacuna que, segundo a análise, pode incentivar a destruição de florestas.
Para ler o estudo completo, acesse: Do Brazilian Amazon beef exporters to the United States enforce zero deforestation policies?