Introdução
O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil, cobrindo 23,3% do território nacional. De seu território nascem as cabeceiras das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul, responsáveis pelo abastecimento de grandes cidades, pela irrigação das principais regiões agrícolas e pela geração de energia elétrica em boa parte do país (MMA, 2022). Apesar dessa importância, o bioma já perdeu 93 milhões de hectares de vegetação nativa, quase metade de sua extensão original, sendo 51% convertidos em pastagem, 28% em áreas agrícolas e 17% em mosaico agropecuário (MapBiomas, 2024). Em 2024, registrou pelo segundo ano consecutivo a maior área desmatada entre todos os biomas brasileiros, 652.197 hectares, equivalentes a 52,5% de todo o desmatamento nacional naquele ano (MapBiomas, 2025).
A pecuária bovina é o principal vetor dessa conversão. Parte da explicação está na própria legislação. O Código Florestal (Lei 12.651/2012) exige a preservação de apenas 20% a 35% da vegetação nativa em propriedades rurais no Cerrado, enquanto na Amazônia essa exigência chega a 80%. Isso significa que a maior parte do desmatamento no bioma ocorre dentro da lei, o que torna a fiscalização do cumprimento legal condição necessária, mas insuficiente, para contê-lo. Contribuem para essa vulnerabilidade a localização geográfica central do bioma, com fácil acesso por uma densa rede de estradas, e a baixa concentração de áreas protegidas, como terras indígenas e unidades de conservação, que na Amazônia têm funcionado como barreiras ao avanço do desmatamento.
Os frigoríficos ocupam posição estratégica nesse contexto. A cadeia produtiva da carne bovina é composta por três fases, cria, recria e engorda. Os fornecedores diretos são as fazendas que vendem o gado diretamente ao frigorífico; os fornecedores indiretos são todas as propriedades pelas quais o animal passou antes disso. Como elo central entre produtores rurais e mercados nacionais e internacionais, os frigoríficos têm capacidade real de influenciar o comportamento de seus fornecedores ao definir critérios de compra (GTFI, 2025).
A experiência da Amazônia comprova essa capacidade. Após a introdução dos Termos de Ajustamento de Conduta firmados com o Ministério Público Federal, conhecidos como TACs da Carne, a probabilidade de um frigorífico comprar de propriedades com desmatamento recente caiu pela metade, e as taxas de desmatamento nas fazendas fornecedoras reduziram significativamente (Gibbs et al., 2016). Pesquisa posterior confirmou que, após os TACs, os frigoríficos continuaram crescendo sem que o desmatamento acompanhasse essa expansão (Da Mata, Dotta, & Severnini, 2026). A lição é clara. Compromissos verificáveis e juridicamente exigíveis podem dissociar o crescimento da pecuária da perda de vegetação nativa.
Mesmo na Amazônia, porém, esse avanço tem limites. O monitoramento se restringe aos fornecedores diretos, enquanto os fornecedores indiretos, por onde o boi passa a maior parte de sua vida, em média dois a três anos, permanecem fora do alcance dos sistemas de rastreabilidade. Essa lacuna abre espaço para a chamada lavagem de gado, em que animais criados em áreas desmatadas são transferidos para propriedades regulares pouco antes da venda ao frigorífico (Gibbs et al., 2016). Em fevereiro de 2026, o MPF anunciou novas diretrizes para o controle gradual de fornecedores indiretos na Amazônia Legal, com implementação prevista até 2028 (MPF, 2026; Boi na Linha, 2026), mas o mecanismo ainda está em fase inicial.
No Cerrado, nenhum acordo equivalente aos TACs da Carne está em vigor. O Protocolo de Monitoramento Voluntário de Fornecedores de Gado no Cerrado, lançado em 2024, representa um avanço relevante ao estabelecer critérios técnicos padronizados para o monitoramento de fornecedores diretos no bioma (Proforest & Imaflora, 2024). O Protocolo tem grande potencial, mas, por ser voluntário e não prever penalidades para o descumprimento, ainda não tem a mesma força de indução de comportamento que os TACs da Carne demonstraram ter na Amazônia. O resultado é que o controle sobre fornecedores diretos e indiretos permanece mínimo ou inexistente para a grande maioria dos frigoríficos que atuam no bioma.
É nesse contexto que o Radar Verde Cerrado 2026 se insere. A iniciativa avalia se os frigoríficos que atuam no bioma possuem políticas públicas, verificáveis e efetivamente implementadas para evitar que a carne comercializada esteja associada à perda de vegetação nativa, considerando tanto fornecedores diretos quanto indiretos. Ao tornar essas informações públicas e comparáveis, o Radar Verde oferece uma base concreta para que compradores, investidores, financiadores e formuladores de políticas avaliem o desempenho das empresas e cobrem avanços verificáveis onde o marco legal ainda não chegou.
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