Resultados completos
A análise utilizou informações públicas e questionários enviados às empresas. Como nenhuma empresa respondeu ao questionário, os resultados refletem apenas evidências públicas disponíveis. Esse procedimento é coerente com a metodologia do Radar Verde, que combina respostas voluntárias das empresas com informações disponíveis em sites, documentos públicos e auditorias independentes (Radar Verde, 2025b, 2026b).
Os resultados são apresentados com o nome da empresa, sua pontuação e sua classificação por cores no Grau de Compromisso Contra o Desmatamento, além do status de resposta ao questionário. A classificação por cores ajuda o leitor a interpretar rapidamente o desempenho demonstrado: vermelho indica grau muito baixo de compromisso; laranja indica grau baixo; demais faixas indicariam níveis intermediários, altos ou muito altos, quando existentes.
A avaliação considera dois componentes principais:
A nota final considera o controle sobre fornecedores diretos e indiretos, pois o risco de desmatamento pode estar em qualquer etapa da vida do animal. Uma empresa que monitora apenas a fazenda que vende diretamente ao frigorífico pode deixar de identificar irregularidades ocorridas nas fazendas anteriores. Por isso, a avaliação do Radar Verde diferencia o controle do fornecedor direto e o controle do fornecedor indireto.
O mapa 1 apresenta a distribuição espacial dos frigoríficos avaliados localizados no bioma Cerrado e seus respectivos Graus de Compromisso Contra o Desmatamento em relação aos fornecedores diretos.
Observa-se uma ampla concentração de unidades na região Centro-Oeste e Sudeste, especialmente nos estados de Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul e São Paulo, que concentram grande parte da produção pecuária nacional. A classificação por cores indica que a maioria dos estabelecimentos apresenta níveis muito baixos de compromisso (vermelho), o que evidencia fragilidades no controle socioambiental ao longo da cadeia produtiva. Por outro lado, um número reduzido de frigoríficos indica níveis mais elevados de compromisso (verde), sugerindo a adoção de práticas mais robustas de monitoramento de fornecedores diretos por parte destas empresas.
De modo geral, o mapa evidencia a predominância de níveis muito baixos de efetividade nas políticas de controle do desmatamento, reforçando a necessidade de avanços na governança da cadeia da carne bovina no Cerrado.
Mapa 1. Desempenho dos frigoríficos avaliados no bioma Cerrado no Grau de
Compromisso Contra o Desmatamento quanto aos fornecedores diretos.
Fonte: Radar Verde Cerrado 2026, com dados dos Sistemas de inspeção federal (SIFs) e estaduais (SIEs) 2025. O mapa 2 apresenta a distribuição espacial dos frigoríficos avaliados no bioma Cerrado e seus respectivos Graus de Compromisso Contra o Desmatamento em relação aos fornecedores indiretos.
Assim como observado no mapa anterior, há uma forte concentração de unidades nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, com destaque para os estados de Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul e São Paulo. No entanto, diferentemente do desempenho observado para fornecedores diretos, verifica-se que a totalidade dos estabelecimentos avaliados apresenta níveis muito baixos de compromisso (vermelho) no monitoramento de fornecedores indiretos.
Esse resultado evidencia uma vulnerabilidade na rastreabilidade da cadeia produtiva, uma vez que os fornecedores indiretos representam uma etapa importante na origem do gado, os animais permanecem em períodos de cria e recria e estão frequentemente associados a maiores riscos de desmatamento.
De modo geral, o mapa reforça que a ausência de mecanismos eficazes de controle sobre fornecedores indiretos constitui um dos principais desafios à efetividade das políticas socioambientais na cadeia da pecuária no Cerrado.
Mapa 2. Desempenho dos frigoríficos avaliados no bioma Cerrado no Grau de
Compromisso Contra o Desmatamento quanto aos fornecedores indiretos.
Fonte: Radar Verde Cerrado 2026, com dados dos Sistemas de inspeção federal (SIFs) e estaduais (SIEs) 2025. Já o mapa 3, a seguir, apresenta a distribuição espacial dos frigoríficos avaliados no bioma e o respectivo Grau de Compromisso Contra o Desmatamento, considerando a nota geral, que reflete o desempenho médio das empresas no controle de fornecedores diretos e indiretos.
A classificação indica que a maioria dos frigoríficos apresenta níveis muito baixos de compromisso (vermelho), mesmo quando se considera a média entre os dois tipos de fornecedores, enquanto uma parcela menor apresenta desempenho baixo (laranja). Esse resultado demonstra que os avanços observados no monitoramento de fornecedores diretos não são suficientes para elevar o desempenho geral das empresas, que são significativamente impactadas pela ausência de controle sobre fornecedores indiretos.
De forma geral, o mapa reforça a predominância de baixos níveis de efetividade nas políticas socioambientais, destacando a necessidade de aprimoramento da rastreabilidade completa e de maior monitoramento e controle da cadeia produtiva da pecuária no Cerrado.
Mapa 3. Desempenho dos frigoríficos avaliados no bioma Cerrado no Grau de
Compromisso Contra o Desmatamento quanto à nota geral (diretos e indiretos).
Fonte: Radar Verde Cerrado 2026, com dados dos Sistemas de Inspeção Federal (SIFs) e Estaduais (SIEs) de 2025. Empresas com auditoria independente
Auditorias independentes são importantes porque permitem verificar, por meio de uma terceira parte, se os critérios socioambientais declarados pelas empresas estão sendo aplicados nas compras de gado. No caso da cadeia da carne, essas auditorias podem avaliar se o frigorífico bloqueou fornecedores associados a desmatamento, embargos ambientais, sobreposição com áreas protegidas, trabalho escravo ou outras irregularidades. O MPF informa que os TACs da Carne Legal na Amazônia incluem compromissos para verificar se fazendas fornecedoras estão livres de desmatamento ilegal, sobreposição com terras indígenas e unidades de conservação, embargos ambientais e registros na lista suja do trabalho escravo (MPF, 2026).
A existência de auditoria, porém, não resolve automaticamente todos os problemas de rastreabilidade. A utilidade da auditoria depende da abrangência territorial, dos critérios avaliados, da qualidade dos dados disponíveis e da inclusão ou não de fornecedores indiretos. Por isso, o Radar Verde considera auditorias independentes como evidência relevante, mas também verifica se elas cobrem o Cerrado e se alcançam a cadeia de fornecimento de forma suficiente.
Tabela 7. Empresas frigoríficas auditadas, regiões de
abrangência e empresas auditoras responsáveis
Fonte: MPF & Boi na Linha, 2025. Limitações do monitoramento dos frigoríficos no Cerrado
O monitoramento da cadeia da carne no Cerrado enfrenta uma limitação estrutural que precisa ser compreendida para além dos números: a maior parte dos sistemas de controle desenvolvidos até hoje foi criada para responder ao desmatamento na Amazônia. Os TACs da Carne, os protocolos de auditoria e os sistemas de monitoramento de fornecedores foram construídos ao longo de anos de pressão concentrada nesse bioma, impulsionados pelo Ministério Público Federal, por organizações da sociedade civil e por compradores internacionais que exigiam garantias sobre a origem da carne. O resultado foi um conjunto de ferramentas razoavelmente desenvolvido para a Amazônia, mas que não foi desenhado para as especificidades do Cerrado.
Essas especificidades importam. No Cerrado, como já discutido, uma parcela expressiva do desmatamento ocorre de forma legalmente permitida em imóveis rurais privados. Isso significa que verificar se houve desmatamento ilegal não é suficiente: é preciso saber também se a empresa tem política para evitar a conversão recente de vegetação nativa mesmo quando autorizada pela lei, caso esse seja o compromisso que ela assumiu publicamente. Esse é um critério mais exigente e mais difícil de verificar do que a simples conformidade legal.
Os dados mostram a escala do problema. O Cerrado abriga 1.365.597 fazendas, das quais 973.705, ou 71%, possuem pastagem com área de pelo menos um hectare. Para entender o que isso significa em termos de monitoramento, é preciso considerar onde essas fazendas estão. Apenas 209.481 delas, ou 22% do total com pastagem, estão localizadas dentro da Amazônia Legal, que é justamente a região onde os sistemas de rastreabilidade dos frigoríficos foram historicamente concentrados. As outras 764.224 fazendas com pasto, que representam 78% do total, estão fora desse limite e, na prática, fora do alcance efetivo de qualquer mecanismo de monitoramento vigente.
De forma direta, a grande maioria das propriedades que potencialmente fornecem gado no Cerrado opera sem qualquer verificação efetiva por parte dos frigoríficos. Cada uma dessas propriedades representa um ponto potencial de entrada de gado oriundo de áreas desmatadas na cadeia produtiva formal, sem que ninguém esteja olhando.
Essa lacuna não é acidental. Ela decorre diretamente da forma como os compromissos contra o desmatamento foram estruturados ao longo dos anos: restritos à Amazônia Legal e voltados quase exclusivamente aos fornecedores diretos, ou seja, à fazenda que vende o boi diretamente ao frigorífico. No Cerrado, onde se concentram 70% das fazendas com pasto fora da Amazônia Legal, o monitoramento é mínimo ou simplesmente inexistente.
O problema se aprofunda quando se olha para a cadeia indireta. Os fornecedores indiretos são as fazendas por onde o animal passou antes de chegar ao fornecedor direto, nas etapas de cria e recria. Essas propriedades são submetidas a um nível de monitoramento muito inferior ao dos fornecedores diretos e, na maioria dos casos, sequer são acompanhadas. Considerando que o Cerrado abriga quase um milhão de fazendas com pasto, a ausência de compromissos contra o desmatamento que abranjam essa cadeia indireta torna o controle estruturalmente insuficiente: mesmo que um frigorífico verifique a fazenda que lhe vende diretamente, o animal pode ter passado por diversas outras propriedades antes de chegar lá, sem que nenhuma delas tenha sido verificada.
Para que o controle da cadeia da carne avance de forma efetiva no Cerrado, os frigoríficos precisarão adaptar seus sistemas de rastreabilidade ao bioma, incorporando bases fundiárias, dados ambientais, informações de trânsito animal, registros do Cadastro Ambiental Rural e critérios específicos para as particularidades da região. Sem essa adaptação, a maior parte da cadeia permanecerá fora do alcance efetivo de qualquer verificação, independentemente dos compromissos declarados pelas empresas.
Figura 3. Fazendas localizadas no bioma Cerrado que são potencialmente
monitoráveis pelos frigoríficos que assinaram Termos de Ajustamento de Conduta (TAC)
da Carne com abrangência na Amazônia Legal
Fonte: MapBiomas (2024) e SICAR (2025). Este site usa cookies para melhorar a sua experiência enquanto navega pelo site. Destes, os cookies que são categorizados como necessários são armazenados no seu navegador, pois são essenciais para o funcionamento das funcionalidades básicas do site. Também usamos cookies de terceiros que nos ajudam a analisar e entender como você usa este site. Esses cookies serão armazenados em seu navegador apenas com o seu consentimento. Você também tem a opção de cancelar esses cookies. Porém, a desativação de alguns desses cookies pode afetar sua experiência de navegação.
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